Epitáfio
Cheguei no dia mais esperado da vida, o da morte.
Eu que tanto vive nas regras da saúde e tive uma vida de
décadas e memórias que as drogas lícitas jamais puderam apagar totalmente.
Nesse instante de último suspiro e reencontro com a leveza
do não corpo deixo para trás todas as riquezas que não acumulei.
Deixo os momentos valiosos que me transformaram
simultaneamente a outros a minha volta/vida/caminhada.
Cresci na indignação.
Floresci no final da primavera de tanto medo que tinha de
ser adulta
Daí adulta me tornei.
E mãe
E ainda nessa jornada permaneci indignada, como na infância
em que questionei o rio morto do meu bairro.
E ainda nos momentos de medo, desisti das ações mais importantes
pra mim, que me trariam conquistas pessoais, enfraqueci na consciência e fui
derrotada pela negatividade do tempo que consumo.
Morro hoje como quem deixa as expectativas no passado e
silencia essa mente no presente.
Silenciar todas as coisas é suspender a própria vida no
tempo e deixar que a vida se desenrole como deve.
Rio de Janeiro, 13 de Dezembro de 2016

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